Há alguns dias tive uma brevíssima
conversa com uma aluna de graduação em História que reclamava do ateísmo de
alguns professores e de como tal condição engendra, a seu juízo, preconceitos
em relação à Igreja Católica.
Bem ao contrário, foi o que lhe respondi.
O problema de alguns professores não é a ausência de religião, mas um seu
subtipo pernicioso: a ideologia. Tais professores são extremamente aferrados a
seus “dogmas” e, como se diz, se os fatos os contradizem, “danem-se os fatos”.
Um cientista, religioso ou não,
deve conhecer os limites dos próprios conhecimentos, seja para agir com
humildade como para avançar com ousadia. E sempre a partir dos fatos. Cioso do
absolutismo de sua ciência não poderá corrigir comprovados equívocos nem buscar
ulteriores aprofundamentos.
É espírito científico que anda
faltando às nossas universidades e não religião propriamente. É óbvio que a
religião é necessária sempre, também no mundo da ciência. A religião dá ao
homem o sentido último do saber e fornece os parâmetros morais que fazem da
ciência uma obra a serviço do homem. Mas a ausência de religião não torna
necessariamente mau um cientista.
Por outro lado, esta nefasta
religião – a ideologia – é totalmente incapacitante. Se, no dizer de Nosso
Senhor, a “verdade liberta”, é igualmente certo que a “ideologia escraviza”; se
a primeira é luz, a última só conhece trevas. Enquanto a ciência não renega a
religião e vice-versa, dado que são distintos modos de conhecer; é total a
incompatibilidade entre a visão científica e a cegueira ideológica.
Digo isto em razão da notícia
universalmente divulgada da mudança do texto da “didascália” sobre Pio XII no Yad Vashem de Jerusalém. No famoso museu
erguido em memória das vítimas do terror nazista, há uma foto do Papa Pacelli e
um texto explicativo sobre sua atuação naqueles anos terríveis.
A “didascália” anterior fazia um
juízo extremamente negativo da obra do Pontífice. Era um vergonhoso acinte não
somente à memória do Papa, mas igualmente à dos sobreviventes e de seus
familiares que à época saudaram Pio XII como um amigo e benfeitor. Mesmo as
autoridades políticas e religiosas judaicas do pós-guerra não pouparam encômios
à ação do Papa, da Santa Sé e de numerosos clérigos e leigos católicos que se
expuseram ao perigo para salvar a vida de milhares de judeus.
Mas como o reconhecimento
generalizado de então deu lugar à animosidade de hoje? A “lenda” foi criada nos
anos 60 com o claro intuito de desmoralizar Pio XII e o que ele representa, e
teve como ponto de partida uma peça teatral que foi levada ao palco nas
principais cidades do mundo. A tese da peça é a do “silêncio” de Pio XII. É a
mesma tese que perpassava toda a anterior “didascália”.
Os historiadores do Yad Vashem reconheceram que já não é
possível continuar ignorando os fatos. As mais recentes pesquisas mostram como
as ações de Pio XII, mesmo o seu silêncio, foram parte de uma estratégia para
salvar o maior número possível de judeus e não-judeus. A própria liberdade de
ação da Igreja Católica, ainda que limitada, só foi possível graças à
concordata. Uma Igreja perseguida teria sido um pesadelo ainda maior para os
judeus.
É possível fazer um juízo
negativo a respeito da estratégia? Penso que sim. Eu não o faço. Certas
declarações peremptórias e pomposas em determinados momentos cruciais da história
podem contribuir para a biografia de determinados personagens, mas o resultado
pode ser o oposto do esperado. Mas não vejo como ofensivo julgar
negativamente, do ponto de vista estratégico, o silêncio de Pio XII. Mas não
dá, do ponto de vista histórico, para tratá-lo como antissemita ou
filo-nazista. Ainda que pudesse ter havido um erro estratégico, jamais houve
fraqueza moral nas ações de Pio XII antes e durante a Segunda Grande Guerra.
Sabem, acho muito sintomático que
os detratores de Pio XII, de quem esperavam uma dura e pública condenação do
nazismo, costumam louvar a atitude dialogante de João XXIII em relação ao
comunismo. No primeiro condenam o silêncio, no segundo elogiam o silêncio. Eis
aí a ideologia entorpecendo o juízo!
Muito mais se saberá, a partir
dos fatos, depois que os arquivos relativos ao período forem abertos. Mas é
pena que somente a Igreja tenha disposição de abrir os seus. Quem tem medo da
verdade?
Enfim, traduzo e transcrevo os
textos da “didascália”.
Anterior
PIO XII E O HOLOCAUSTO
“A reação de Pio XII ao
assassinato dos hebreus durante o Holocausto é uma questão controversa. Em
1933, quando era Secretário de Estado vaticano, se empenhou para obter uma
Concordata com o regime alemão para preservar os direitos da Igreja na
Alemanha, ainda que isto tenha significado reconhecer o regime racista nazista.
Quando foi eleito Papa em 1939, deixou de lado uma carta contra o racismo e o
antissemitismo preparada pelo seu predecessor. Mesmo quando notícias sobre o
assassínio dos hebreus chegaram ao Vaticano, o Papa não protestou nem
verbalmente nem por escrito. Em dezembro de 1942, abstém-se de assinar a
declaração dos Aliados que condenava o extermínio dos hebreus. Quando os
hebreus foram deportados de Roma para Auschwitz, o Papa não intervém. O Papa
mantém uma posição neutra durante toda a guerra, com exceção dos apelos aos
governantes da Hungria e da Eslováquia, até o final. O seu silêncio e a falta
de orientação obrigaram o clero da Europa a decidir pela própria conta como
reagir”.
Atual
O VATICANO E O HOLOCAUSTO
"O Vaticano sob a guia de Pio XI,
Achille Ratti, e representado pelo Secretário de Estado Eugenio Pacelli,
assinou uma concordata com a Alemanha nazista a fim de preservar os direitos da
Igreja Católica na Alemanha. A reação de Pio XII, Eugenio Pacelli, ao
assassinato dos hebreus durante o Holocausto é objeto de controvérsia entre os
estudiosos. Desde o início da Segunda Guerra mundial o Vaticano mantém uma
política de neutralidade. O Pontífice se abstém de assinar a declaração dos Aliados
de 17 de dezembro de 1942 que condena o extermínio dos hebreus. Entretanto, na
sua radiomensagem natalícia de 24 de dezembro de 1942 ele fez referência às “centenas
de milhares de pessoas, as quais, sem qualquer culpa própria, às vezes somente
por razão de nacionalidade ou de estirpe, são destinadas à morte ou a uma
progressiva aniquilação”. Os hebreus não eram explicitamente mencionados.
Quando os hebreus foram deportados de Roma para Auschwitz o Pontífice não
protestou publicamente. A Santa Sé apelou separadamente aos governantes da
Eslováquia e da Hungria em favor dos hebreus. Os críticos do Papa sustentam que
a sua decisão de abster-se de condenar o assassínio por parte da Alemanha
nazista constitua uma falta moral: a falta de uma orientação clara permitiu a
muitos colaborar com a Alemanha nazista seguros da opinião de que aquilo não
estava em contradição com os ensinamentos morais da Igreja. Isto deixou ainda a
iniciativa de salvação dos hebreus a padres e leigos individualmente. Os seus
defensores arguem que esta neutralidade evitou medidas mais duras contra o
Vaticano e contra as instituições da Igreja em toda a Europa, consentindo assim
que se realizasse um número considerável de atividades secretas de salvação em
diferentes níveis da Igreja. Ademais, eles apontam casos em que o Pontífice
ofereceu encorajamento a atividades em que os hebreus foram salvos. Enquanto
todo o material relevante não estiver disponível aos estudiosos, este tema
permanecerá aberto a ulteriores pesquisas”.