Um novo bispo auxiliar para
Shanghai. Assim se resolve um caso complexo que ameaçava complicar a vida
eclesial na diocese mais relevante da Igreja Católica na China. Graças
sobretudo ao “sensus fidei” do bispo jesuíta de 95 anos, Aloysius Jin Luxian.
GIANNI VALENTE
ROMA
A diocese mais importante da
Igreja na China terá logo um novo bispo. Será Thaddeus Ma Daqin, o
sacerdote de 40 anos nomeado vigário-geral em dezembro passado.
Para seu nome se prevê que convirja
a maior parte dos votos dos representantes da diocese (sacerdotes, freiras e
alguns leigos das paróquias) durante a consulta fixada – salvo surpresas de
última hora – paro o próximo dia 28 de maio (ndt: segunda-feira passada). A ordenação de Ma para bispo auxiliar
está prevista para o fim de junho, de pois que o aparato governamental e o
Colégio dos bispos chineses tiverem dado sua aprovação. Quando chegar o
momento, será Thaddeus o sucessor designado de Aloysius Jin Luxian à chefia
efetiva da diocese shanghaiense, com o consenso convergente da Santa Sé e das
autoridades civis de Pequim. A sua
nomeação prefigura a solução de um caso complexo, em que as dinâmicas vividas
pela catolicidade chinesa emergem nos seus contornos reais, alheios aos
estereótipos interpretativos, tão generalizados quanto enganosos.
Até dezembro passado, em Shanghai
havia três bispos católicos. Um era Dom Giuseppe Fan Zhongliang, sagrado
clandestinamente em 1985 sem consenso governamental, sucessor legítimo de Dom Ignazio
Gong Pinmei – o herói da resistência católica diante da propaganda e das
perseguições maoístas, preso em 1955, criado cardeal in pectore por João Paulo II em 1979 enquanto ainda estava na
prisão e morto no exílio em Connecticut em 2000. Para a Santa Sé, formalmente Fan
detém ainda a titularidade da diocese de Shanghai. A ele se referem as
comunidade ditas “clandestinas” que rejeitam as regras e os condicionamentos
impostos pela política religiosa do regime. Mas há anos Fan sofre do mal de Alzheimer,
perdeu a memória e vive retirado num apartamento, na condição de liberdade
vigiada. Desde 1988 a diocese, em todas as suas articulações oficiais –
paróquias, seminário, instituições culturais e caritativas – é guiada por Jin,
também ele jesuíta. Sagrado bispo em 1985 com o reconhecimento do governo mas
sem o mandato pontifício, o bispo Jin
pertence àquela geração de pastores que num determinado momento escolheu
aceitar a sagração episcopal ilegítimas impostas pelo regime com a intenção de
favorecer a retomada da vida eclesial e a possibilidade de administrar os
sacramentos necessários à vida dos fiéis, à luz do dia.
Depois de 20 anos, também Jin, em 2005, recebeu de Roma a sua legitimação
canônica, sendo enquadrado como bispo coadjutor de Shanghai. Na primavera daquele mesmo ano foi sagrado
também o jovem bispo auxiliar Giuseppe
Xing Wenzhi. A sua ordenação foi recebida e comentada como um
desenvolvimento muito positivo nas turbulentas relações entre Vaticano, governo
chinês e Igreja Católica na China. Ela representava naquela fase o caso mais
eloquente da primeira série de nomeações episcopais ocorridas “com consenso
paralelo” da Santa Sé e do governo chinês. Uma
praxe provisória e muito precária, que entretanto permite a Pequim e à Santa Sé
dialogar sobre procedimentos de seleção dos bispos chineses.
Giuseppe Xing, escolhido
sobretudo graças aos bons ofícios de Jin, foi considerado durante muito tempo o
seu sucessor in pectore, destinado a
exercitar mais cedo ou mais tarde uma liderança reconhecida pela diocese
inteira, que também os “clandestinos” receberiam bem. Mas recentemente esta prospectiva complicou-se lentamente: por último,
o próprio Xing fez saber que não poderia assumir a condução da diocese à qual
parecia destinado, e se retirou. Em dezembro Jin confirmou a demissão de
Xing do ofício de bispo auxiliar, e contemporaneamente nomeou Thaddeus Ma para
a função de Vigário-Geral com a óbvia intenção de indicá-lo como seu possível
sucessor.
Nos últimos tempos, perdeu-se o
paradeiro de Xing. Não participou das últimas celebrações natalinas. E nos
blogs católicos chineses pululam comentários e indiscrições sobre o caso. Segundo
alguns, teria retornado à cidade natal de Zhoucun, na província de Shandong. Há
quem recorde as suas relações nada maravilhosas com os organismos “patrióticos”
com os quais o governo condiciona a vida da Igreja. E a mortificação vivida
quando, em dezembro de 2010, teve de participar contra sua vontade da assembleia
dos representantes católicos chineses, o organismo pseudodemocrático, pilotado
pelo partido, que redistribuiu os encargos de comando nos organismos eclesiais
e paraeclesiais. Outros observadores põem o acento nas dificuldades de
adaptação que Xing teria encontrado – ele, considerado por muitos como um “forasteiro”
– nas relações com o clero de Shanghai. Na realidade, a demissão do ofício de
bispo auxiliar foi um pedido pessoal seu.
A demissão de Xing ameaçava pôr
em perigo a continuidade da sucessão apostólica legítima e o governo pastoral
na diocese histórica e numericamente mais relevante da Igreja Católica na
China. A movimentação de Jin – que nomeou
o novo vigário-geral Thaddeus Ma e depois preliminarmente verificou
tanto o consenso político quanto o eclesial canonicamente requerido para sua
eventual sagração episcopal – abriu uma possibilidade de solução, desarmando
inúteis complicações.
O shanghaiense Padre Thaddeus estudou no seminário
diocesano de Sheshan e sempre desempenhou o seu trabalho pastoral no interior
das megalópoles. Foi pároco decano da área urbana de Pudong e assumiu encargos
de responsabilidade no setor editorial e cultural da diocese. Conhece o terreno
e goza de ampla estima no clero de sua cidade. Está acostumado a tratar também
com o poder político em virtude dos encargos desempenhados numa diocese que
preferiu o diálogo ao choque. A Associação Patriótica dos Católicos Chineses
local (organismo burocrático com o qual o regime pretende controlar a vida da
Igreja a partir do interior) em Shanghai se move em boa sintonia com o bispo. Sendo
assim, quando chegar o momento, é facilmente previsível que os representantes
da diocese – sacerdotes, religiosos, leigos – indicarão Thaddeus como novo
bispo coadjutor, no respeito formal dos procedimentos de autogestão “democrática”
impostos pelo aparato.
Fonte: Vatican
Insider, 25/05/2012
Tradução: OBLATVS
Atualização [30/05/2012]
O Padre Thaddeus
Ma Daqin foi eleito bispo coadjutor de Shanghai (ou será auxiliar?) em eleição realizada hoje em Pequim.
Obteve 160 dos 190 votos; dois votos foram contrários e houve 28 abstenções. O
padre pode ser considerado bispo eleito, uma vez que já recebeu a aprovação do
Papa. A sagração dependerá da aprovação por parte da conferência dos bispos,
entidade não reconhecida pela Santa Sé.


